O presidente da Assembleia Municipal de Estremoz foi o convidado para o exclusivo da edição 100 do ´E´. Disponível, pontual e acessível, o autarca explica como surgiu o convite do MiETZ e a desfiliação do PSD. Nuno Rato fala da comunicação social regional, do relacionamento com as outras forças políticas e dos grandes desafios para Estremoz. Questionado sobre as suas pretensões políticas é perentório: “O futuro a Deus pertence”.

Jornal ´E´- Tomou posse no dia 19 de outubro de 2013 como presidente da Assembleia Municipal de Estremoz. Que balanço faz destes primeiros meses?

Nuno Rato – Faço um balanço positivo, para já. Estamos nos primeiros cinco meses e não houve assim muitas sessões, por isso não podemos tirar grandes ilações. É um espaço privilegiado para o debate político, onde há maior representatividade das forças políticas do concelho. As coisas têm corrido normalmente, há sessões mais acaloradas que outras, mas faz parte da cultura política. Em termos da Câmara Municipal, está a fazer o seu trabalho, a tentar implementar o programa que sufragou nas últimas eleições autárquicas. Não vejo até ao momento, de negativo, nenhum sobressalto maior. De uma parte positiva vejo o avançar da Zona Industrial de Arcos.

Relativamente ao cargo que desempenha. Sente-se preparado?

(risos) Sim, sinto. A preparação decorre de estar na Assembleia Municipal (AM) há muitos anos. Este é o terceiro mandato que estou a exercer na AM. Assim também os deputados me ajudem e vai correr tudo bem.

É um cargo que pode ter alguns constrangimentos? 

Não sei se são constrangimentos. Não é um cargo profissional. Representar a AM nas variadíssimas ocasiões e, por exemplo, o ter que vir hoje aqui para despachar documentos e dar conhecimento de coisas que chegam ao gabinete, vai fazer com que tenha de dispor de maior tempo pessoal. Não posso deixar o campo profissional, continuo a exercer o cargo de professor e diretor pedagógico do Externato Rainha Santa Isabel, em Estremoz, que está em primeiro plano. Fica mais prejudicada a família, o tempo livre que possa ter vai sendo cada vez mais diminuto. 

Foi deputado pelo PSD. Como surgiu depois o convite por parte do MiETZ

Fiz dois mandatos pelo PSD, no último dos quais exerci o cargo de líder do grupo municipal. Surgiu numa altura em que não encontrei no PSD uma respostas para aquilo que seriam os anseios e as preocupações do concelho de Estremoz. Acho que foi uma proposta natural por parte do MiETZ, que reviam em mim uma postura e uma vontade de fazer algo pelo concelho. Eu vi que o MiETZ tinha o programa e a equipa que no meu entender melhor iam responder aos desafios do concelho, que são muitos, e por isso acreditei no projeto e a ele me dediquei. Entendo que antes de sermos de alguma força partidária, temos de pensar no concelho de Estremoz. Foi isso que eu fiz. Não pensei em partidos, nem em termos pessoais, nada disso.

Alguma oposição diz que mudou de cor política de um momento para o outro. Como é que reage a estas críticas?

Sou e continuo a ser social-democrata, a única coisa que mudou é que não sou filiado no PSD porque não seria coerente ir candidatar-me por um movimento independente numas eleições nas quais o PSD também iria concorrer. Isso sim é que seria um contrassenso, alguém ser militante de um partido e apoiar uma outra força política, mesmo sendo independente. Por isso, a primeira coisa que foi desfiliar-me do PSD. Foi uma decisão ponderada, não foi uma decisão de um dia para o outro. Em finais de maio, o MiETZ formalizou o convite através de Luís Mourinha e de um conjunto de outras pessoas que fazem parte do núcleo duro do MiETZ. Ponderei, consultei família e amigos, consultei pessoas que até são atuais militantes do PSD. Após ouvir várias opiniões, decidi aceitar e desfiliei-me automaticamente do partido.

Ao nível nacional o PSD afastou alguns militantes que concorreram por forças politicas diferentes. Foi o seu caso?

Não. Acho que essas sanções são contraproducentes porque até esta data o PSD sempre foi um partido livre, sempre respeitou todas as opiniões por mais divergentes que elas fossem. Não vejo com bons olhos essa expulsão de militantes. Os militantes são cada vez menos, cada vez há menos pessoas empenhadas em participar ativamente na política. Não faz sentido a expulsão de militantes só porque num dado momento não concordaram com aquilo que o partido estava a apresentar. Nas eleições autárquicas não se vota na sigla, vota-se sobretudo nas pessoas e num projeto encabeçado por elas. É isso que também o PSD Estremoz aprendeu.

Portanto ao nível nacional considera-se um social-democrata, ao nível local não se revê tanto no partido? 

Sou social-democrata, ponto. Apesar de achar, até em termos nacionais, que o PSD desviou-se um pouco daquilo que era a sua matriz ideológica. Penso que deve repensar aquilo que é a social-democracia, a igualdade, um capitalismo com aposta no humanismo, na solidariedade. Acho que o PSD no seu todo não tem vindo a aplicar aquilo que foram as diretrizes e ideias base. Em termos locais, não me revi na política e nas pessoas que estiveram à frente do partido.

Se fosse convidado a voltar ao PSD Estremoz, a médio/longo prazo, num projeto com pessoas diferentes, aceitaria?

Teria que se ponderar tudo isso. Continuo a dizer que sou social-democrata mas sou sobretudo um cidadão de Estremoz. Quero rever-me em qualquer projeto que melhor defenda o meu projeto. Se no futuro me convidarem a participar ativamente num projeto, eu estou sempre disposto.

Acreditou no projeto do MiETZ, contra o qual já foi oposição. Como é que se muda de opinião?

O meu maior projeto sempre foi Estremoz e os estremocenses. Colocar as minhas capacidades em prol dos meus conterrâneos. Quando somos críticos, somos críticos não das pessoas, mas de ações concretas, num momento concreto, mas isso faz parte da vida. Não podemos estar de acordo com tudo, como hoje. Se achar que algo está mal e não concordo, tenho todo o direito e liberdade de manifestar a minha opinião. Foi isso que fiz no passado, faço-o no presente e fá-lo-ei no futuro.

 Como tem sido o relacionamento com as outras forças políticas?

Neste momento está a ser bom, profícuo. Por natureza, eu dou-me bem com todas as pessoas. Procuro criar pontes e estabelecer diálogo com os vários intervenientes políticos do concelho. Conheço todos os deputados municipais e os líderes dos partidos, com eles tenho relações pessoais ou de maior proximidade, mas sobretudo uma grande relação de respeito. Podendo ou não concordar com as posições que cada um assume, mas respeito-as. Aceito todas as posições, desde que sejam para o bem de Estremoz. A AM é um palco para debater com frontalidade, honestidade e respeito. Não há ninguém que seja dono da verdade e não há nenhuma eleição que venha legitimar um absolutismo da verdade por parte de alguém. Até costumo dizer que há sempre várias verdades.

 Já pertenceu ao PSD, agora ao MiETZ. No plano pessoal quais são as suas pretensões políticas?

Comecei muito cedo na política. O ter chegado aqui foi de facto só por isso. Inicie nas associações de estudantes, em movimentos de variadíssimas ordens e dei um passo natural dentro do PSD. Revi-me nessa ideologia e assumi-a por completo. Isto é um ´cliché´, mas ´o futuro a Deus pertence´. Não faço a mínima ideia qual vai ser o meu futuro, eu vivo muito o presente, que neste momento passa por defender as cores do meu concelho.

 Ser presidente da Câmara alguma vez esteve ou poderá estar nos seus horizontes?

Tanto como esteve ser presidente da AM, é igual. Vejo isso com naturalidade. Se disser que não há uma ambição de ser presidente da Câmara, deputado, ou outro cargo político, não estaria a ser sincero. Mas também revejo o não ser presidente da Câmara, ou seja, ser um vereador, um deputado, um presidente de junta de freguesia ou um mero vogal. O importante aqui é termos vontade de participar em algo e fazer pelos outros. Sempre foi o meu modo de vida, fui educado assim e é assim que sou feliz.

Essa deveria ser a base da política, que está cada vez mais desacreditada. O que é que tem levado a essa descrença?

Acho que é mais nos políticos, nos atores, se bem que há bons e maus atores nas autarquias, nas forças partidárias e no poder central. As pessoas não acreditam nos atuais políticos porque a forma como eles intervêm não corresponde aquilo que dizem. É um pouco como diz o povo: ´Faz o que eu digo, não faças o que eu faço´.

 A ´máquina partidária´ pode ser um obstáculo?

É. Quando se está num movimento independente não há aquela pressão de corresponder aos favores partidários. Esta lógica de movimentos independentes tem a vantagem de não estar castrada a qualquer movimento de interesses partidários. Pode aceitar todas as forças e movimentos partidários.

 Pode ser também uma desvantagem?

Claro que sim. O ter uma máquina partidária por trás tem outros meios para passar a mensagem. Um movimento independente trabalha com a vontade e disponibilidade de cada um.

Ainda quanto ao MiETZ, a oposição rotula o movimento de cada vez mais estar filiado à direita. Concorda com esta apreciação que alguns fazem?

Não. Acho que o MiETZ, e vi isso nas últimas eleições autárquicas, é um movimento que tem pessoas de vários quadrantes: esquerda, direita, centro/esquerda, centro/direita. Tanto assim é que teve o resultado que teve. Se tivesse só uma determinação ideologia, se calhar o resultado eleitoral não tinha sido tão expressivo. Não vejo que essa crítica faça sentido neste momento.

 Qual é o grande desafio para o concelho de Estremoz nos próximos tempos?

O grande desafio tem a ver com o desenvolvimento, que abarca variadíssimos fatores: emprego, localização de empresas, promoção. O problema do desemprego é um problema nacional, terá que ser dinamizado um conjunto de políticas para promover o emprego e os postos de trabalho. No entanto, não nos podemos esquecer que o papel de uma autarquia é muito mais lato. Tem a preocupação social, ambiental, educação. Não pode de forma nenhuma ligar-se a um vértice e esquecer os outros. É para isso que existem vários vereadores e o presidente da Câmara tem de os coordenar. Para que todos, em conjunto, possam suprimir as carências dos estremocenses. Pelo panorama nacional, também não somos dos concelhos que tem das maiores taxas de desemprego, mas não podemos descurar.                                                                            

Porque esta entrevista surge integrada na nossa edição 100. Que opinião tem da comunicação social local?

Sou um acérrimo defensor da comunicação social local/regional porque é aquela que está mais próxima das pessoas. É muito difícil hoje em dia qualquer órgão de comunicação social sobreviver, particularmente os locais e em concelhos pequenos e/ou de média dimensão, com poucas empresas, onde a questão da publicidade não abunda. As pessoas têm dificuldade em investir e não é pela venda de jornais que eles podem sobreviver. O poder central, uma vez que gosta tanto de falar na descentralização, quando tem publicações para anunciar e que insiste sistematicamente em publicar em jornais de tiragem nacional, com grandes empresas por trás e que se calhar não são tão independentes como são os órgãos locais, deviam fazê-lo nos jornais locais. Têm a abrangência que eles procuram e estariam a ajudar os jornais locais. Estes têm também a particularidade de dar voz aos cidadãos anónimos, para que depois a sua voz possa ser ouvida pelos órgãos autárquicos, regionais e mesmo nacionais. Acredito na sua independência e na forma como trabalham. A proximidade que têm com o leitor e com o meio faz com que possam ser muitas vezes os solucionadores de problemas, ao contrário do que muitos possam pensar. Um exemplo, quando dizem que há uma parte de uma muralha que está a cair. Se chamam a atenção para isso, não deve ser visto como um ataque, antes pelo contrário, serve de chamada de atenção. Vejo isso com naturalidade. 

Que mensagem gostaria de deixar aos nossos leitores?

Duas mensagens. Esperança e solidariedade. Se não acreditarmos que as coisas não vão melhorar, elas não melhoram mesmo, temos de ter esperança, ser confiantes. Colocarmo-nos ao serviço dos outros em coisas muito simples. Olhar para o vizinho do lado, vendo o que é que ele precisa e ver o que posso fazer para o ajudar. Apoiar as associações locais, entrando dentro da política, todos nós somos agentes políticos. Colocarmo-nos ao serviço dos outros e agir é fundamental para os próximos anos.

 AC