Quando, em 2012, Carolina Mendes rumava a Barcelona para fazer Erasmus, enquanto estudante de fisioterapia, mal sabia que o bilhete comprado acabaria por ser apenas de ida. Um convite para jogar num clube da zona, o UE Lestartit, fez com que a jovem avançada de Estremoz se mudasse de armas e bagagens para Espanha, onde esteve durante dois anos, dedicando-se a 100 por cento à paixão pelo futebol. Daí saltou para Itália e, mais tarde, para a Rússia, onde se encontra atualmente, ao serviço do Rossiyanka, da primeira divisão.

Para a jovem avançada, que conta com dois campeonatos e duas taças de Portugal conquistados ao serviço do 1.º Dezembro, novos desafios são sempre bem-vindos, daí que a adaptação a um novo país não tenha sido complicada.

«Como já estava em Barcelona, já tinha alguma noção do que era estar fora de casa, portanto a mudança acabou por não ser um choque assim tão grande, até porque a língua e a cultura espanhola acabam por ser parecidas com a nossa. Na altura, também fui com mais três portuguesas [Raquel Infante, Mónica Gonçalves e Vânia Van der Kellen] para o UE Lestartit, o que tornou tudo mais fácil», conta Carolina Mendes a A BOLA.

Da passagem por Espanha, a jogadora só guarda o melhor. «Adorava a zona onde estava, era uma cidade pequenina na Costa Brava, muito sossegada, com praia mesmo em frente à nossa casa. Por outro lado, se quiséssemos mais agitação era só darmos um saltinho até Barcelona», recorda a internacional portuguesa.

Um ano depois, Carolina seria mesmo obrigada a saltitar entre Portugal, onde fez o estágio do curso, e Espanha, onde continuava ligada ao futebol, desta feita no Olivenza, perto de Badajoz. O curso de fisioterapia, no entanto, acabou mesmo por ficar em stand-by… até hoje. «Faltam-me dois exames, que penso fazer na época especial, em setembro», conta. «Para já, continuo focada no futebol, mas sei que não vai durar para sempre. Gostava, um dia, de poder exercer fisioterapia mas continuando ligada ao Desporto», acrescenta.

Os estranhos hábitos alimentares dos… italianos

Convidada para jogar no ASD Riviera, em 2013, foi com grande entusiasmo que Carolina viajou para Cervia, no norte de Itália, outra cidade com praia mesmo ali à porta de casa e gente «muito acolhedora», mas de hábitos alimentares suspeitos.

«Ao início estranhei muito a comida, principalmente a ordem em que serviam a comida, primeiro a salada, depois o prato de massa e só depois é que vem o prato principal. Eu adoro massas mas achava estranhíssimo comer aquilo sem nada a acompanhar», explica a avançada, que, no meio de tantos hidratos de carbono e muito pouca sopa, rendeu-se por completo ao gelado italiano:

«É qualquer coisa!»

Bendito Google Tradutor

No ano passado, Carolina trocou o calor das praias mediterrânicas pelo frio da Rússia, após ter recebido um convite para representar o Rossiyanka, clube situado numa cidade a cerca de 50 quilómetros da capital Moscovo. No entanto, não foram as temperaturas negativas que mais arrepios causaram à jovem avançada, que em pleno inverno anda de t-shirt em casa, tal é a preparação das casas para aguentarem o frio.

«Muito pouca gente fala inglês aqui. É um país muito mais fechado, em que os habitantes praticamente só falam russo, o que torna tudo muito mais difícil para quem vem de fora», revela a internacional lusa. A explicação dos exercícios nos treinos, afirma, são feitos com a ajuda duma tradutora que acaba por ser um elo de ligação entre as jogadoras e o treinador.

«Acabamos sempre por nos adaptar mas ao início foi complicado», afirma Carolina. Um entrave que já obrigou a jogadora a recorrer ao recorrer ao Google Tradutor para explicar o que queria comer, a um empregado duma pizaria, e a ignorar um bilhete escrito por um nativo russo. «Estava tudo escrito em russo, assim não ia ter muita sorte…», brinca.

Carolina estranhou também a ausência de cafés e esplanadas no país. «Falta aquele convívio nas esplanadas, é pedir o café num quiosque e seguir caminho», conta. Mas também torce o nariz à vodka: «Não gosto». A alimentação, por sua vez, surpreendeu a avançada. «Pensei que fosse pior. Até gosto da comida deles, eles comem muita sopa, e estas são bastante condimentadas, fazem-me lembrar as sopas alentejanas…»

A paixão pelo hóquei

Curiosamente, não foi o futebol que levou Carolina para o desporto. Natural de Estremoz, onde o hóquei em patins é modalidade de eleição, o futebol só entrou na vida da avançada aos 16 anos, altura em que recebeu um convite para jogar no Elétrico.

«Nessa altura, o futebol ainda era uma segunda opção. O Eléctrico ficava longe de Estremoz, pelo que só ia aos jogos, era impossível treinar lá. O hóquei sempre foi a minha modalidade de eleição. Mesmo quando fui estudar para Lisboa, conseguia conciliar as duas modalidades. Aos sábados ia a Estremoz para jogar hóquei pelo Externato de São Filipe e ao domingo já estava em Lisboa para jogar futebol pelo 1º Dezembro. Só quando fui para Espanha é que tive de deixar definitivamente o hóquei», explica Carolina, que, durante a estada na Rússia, já teve oportunidade de matar saudades do hóquei… no gelo.

«Já tive oportunidade de ir assistir a um jogo e adorei. Na verdade, só tinha vontade de calçar os patins e jogar, apesar de ser bastante diferente», remata.

Futuro é incógnita

Mal pisou solo russo, Carolina admitiu ter ficado bastante surpreendida com as condições com que se deparou no Rossiyanka, clube que tem como objetivo para esta época chegar à Liga dos Campeões feminina.

«Fiquei espantada com o que encontrei, logo a começar pelos contratos, que são muito mais profissionais e específicos. Aqui sinto-me mesmo uma empregada do clube. Por outro lado, as condições são completamente diferentes em relação aos outros clubes por onde passei, temos um estádio e um autocarro só para nós… é um outro mundo», afirma.

Carolina, que tem contrato com o clube até novembro, ainda não sabe o que o futuro lhe reserva em termos profissionais. Para já, vai afinando a pontaria no Rossiyanka.

«Gosto de novos desafios e, claro, gostava de experimentar jogar noutras ligas. Regressar a Portugal não faz parte dos meus planos, pelo menos para já. Também mão sei o que o futuro me reserva, mas enquanto poder continuar a jogar futebol vou continuar cá fora.»

Foto e reportagem : ‘E’, com A Bola