No seu blog http://dotempodaoutrasenhora.blogspot.pt/, Hernâni Matos dedica um post a Armando Alves, artista plástico estremocense, que deu à estampa no passado sábado, dia 6 de dezembro, o livro “Escrito na cal & outros lugares Poéticos”. O livro é uma coletânea de depoimentos em prosa e em verso, sobre Armando Alves, artista plástico natural de Estremoz e com projeção internacional, publicado pela editora “Modo de Ler”. Tem prefácio de Isabel Pires de Lima e reúne textos de 53 autores, entre os quais Albano Martins, António Simões, Eduardo Lourenço, Eugénio de Andrade, Herberto Helder, Hernâni Matos, José Saramago, Luís Veiga Leitão, Mário Cláudio, Urbano Tavares Rodrigues e Vasco Graça Moura.
O post de Hernâni Matos, que com a devida vénia, reproduzimos na íntegra tem o título Armando, bonequeiro de Estremoz e alude à vida e obra do artista estremocense.
“Armando Alves (1935- ),natural de Estremoz e consagrado artista plástico a quem José Saramago (1922-2010) chamou “Inventor de Céus e Planícies”, frequentou a Escola Industrial e Comercial de Estremoz, entre 1949 e 1952. Aí teve aulas de oficinas de olaria com Mestre Mariano da Conceição (1903-1959).
Foi no ano lectivo de 1951-52, já com a Escola Industrial e Comercial de Estremoz instalada no Castelo, que o jovem Armando começou a confeccionar os seus bonecos de Estremoz.
O trabalho de modelação, cozedura, pintura e envernizamento era feito na própria Escola e Armando não terá confeccionado mais que 10 modelos de bonecos: – Figuras que têm a ver com a realidade local: amazona, leiteiro, mulher a vender chouriços e homem do harmónio; – Figuras intimistas que têm a ver com o quotidiano doméstico: Mulher a lavar; – Figuras que são personagens da faina agro-pastoril nas herdades alentejanas: ceifeira, mulher da azeitona, pastor de tarro e manta, pastor com um borrego e pastor do harmónio. Ao todo não terá manufacturado mais que cinquenta bonecos. Estes eram comercializados em Estremoz na Papelaria Ruivo, situada no Largo da República, número vinte e quatro, em Estremoz. Exactamente um dos locais em que eram comercializados os bonecos do Mestre Mariano da Conceição. Fê-lo a pedido da proprietária, a sua tia Joana Ruivo. Cada figura era vendida ao preço de vinte e cinco tostões, enquanto que os de Mestre Mariano custavam doze mil e quinhentos.
Actualmente, o Armando não faz ideia de quem comprava os seus bonecos. Todavia, lembra-se da tia, uma vez lhe ter dito que uma dessas pessoas era o coleccionador e médico calipolense, Dr. Couto Jardim (1879-1961).
Mestre Mariano marcava os seus bonecos, estampando na base a marca “ESTREMOZ/PORTUGAL”, em maiúsculas distribuídas por duas linhas. Porém, o jovem Armando vai além do Mestre e assina simplesmente“Armando”, em caracteres manuscritos. Fá-lo a verde, o verde da esperança e verde das searas que já doiradas, ondularão mais tarde as suas telas de artista consagrado. Tratou-se então, de uma aposta forte visando o futuro. Uma espécie de premonição da Obra que iria construir. Daí a razão de assinar simplesmente“Armando”. Sabem porquê? É simples. Toda a gente sabe quem é o Armando. Pois claro!”
Hernâni Matos